O Sonho do Oráculo – “O Homem e seus Símbolos” (1964)

1621963_10203329295735576_1235997619_n-300x208

Pessoas que confiam totalmente no raciocínio e afastam ou reprimem qualquer manifestação de vida psíquica muitas vezes se inclinam inexplicavelmente para a superstição. Ouvem oráculos e profecias e podem ser facilmente burladas ou influenciadas por mágicos e charlatães. E porque os sonhos compensam nossa vida exterior, a importância que estas pessoas dão ao intelecto é contrabalançada pelos sonhos, onde encontram o irracional sem possibilidade de fuga. 

O I Ching, chamado “Livro das Transmutações”, é um velho livro de sabedoria; suas raízes remontam aos tempos mitológicos e, na sua forma atual, data do ano 3000 A.C. De acordo com Richard Wilhelm (que o traduziu para o alemão e fez-lhe admirável comentário), os dois principais ramos da filosofia chinesa — o taoísmo e o confucionismo — originaram-se do I Ching. O livro baseia-se na hipótese da unidade do homem e do cosmos, e da existência de um par de princípios opostos e complementares, o Yang e o Yin (isto é, os princípios masculino e feminino). Consiste de 64 “sinais”, cada um representado por um desenho de seis linhas. Nestes sinais estão contidas todas as possíveis combinações de Yang e Yin. As linhas retas são consideradas masculinas, as linhas quebradas, femininas. Cada sinal descreve mudanças na situação humana ou cósmica, e cada um prescreve, em linguagem pictórica, a atitude a adotar em tais ocasiões. Os chineses consultavam este oráculo de uma maneira que lhes indicava qual destes sinais se aplicaria a um momento definido. Empregavam para isto, de um modo bastante complicado, 50 pequenas varetas, obtendo então um determinado número. Atualmente, o método usado para consultar o I Ching utiliza três moedas. Cada vez que se lançam as moedas obtém-se uma linha. “Cara” significa a linha masculina e vale três; “coroa”, uma linha quebrada, feminina, e vale dois. Jogam-se seis vezes as moedas e o número obtido indica o sinal do hexagrama (isto é, o conjunto de seis linhas) a ser consultado. Mas o que significa nos dias de hoje esta “adivinhação”? Mesmo aqueles que aceitam a ideia de ser o I Ching um depósito de sabedoria hão de achar difícil acreditar que a consulta ao oráculo seja qualquer coisa mais que uma simples experiência de ocultismo. Não é fácil realmente perceber que estas consultas envolvem outros fenômenos, pois o homem comum, hoje em dia, considera qualquer técnica divinatória um contra-senso arcaico. No entanto, não são contra-sensos. Como mostrou o Dr. Jung, este sistema de consultas está baseado no que chamou “o princípio da sincronicidade” (ou, mais simplesmente, coincidência significativas). Descreveu esta nova e difícil concepção no seu ensaio Sincronicidade: um Princípio de Relação Acausal. Baseia-se na hipótese de um conhecimento interior inconsciente ligar um acontecimento físico a uma condição psíquica, de modo que um determinado acontecimento que parece “acidental” ou “coincidente” pode, na verdade, ser psiquicamente significativo; e o seu significado é, muitas vezes, indicado simbolicamente através de sonhos que coincidem com o acontecimento.

1034px-Pakua.svg

Neste capítulo há várias analogias com os motivos do sonho. De acordo com o texto do I Ching, as três linhas superiores deste hexagrama simbolizam uma montanha, e significam “aquietar-se”; podem também ser interpretadas como um portão. As três linhas inferiores simbolizam a água, o abismo e a lua.

Quando se atinge uma maior conscientização, ela pode se mostrar simbolizada no sonho como “o ponto mais alto”: a cidade está construída numa montanha. Como se o individuo “galgou” uma conscientização mais aguda no “país da sombra”. Dali esperava “encontrar o caminho de casa”. Como em muitos contos mitológicos, a montanha muitas vezes simboliza um lugar de revelação, onde se produzem mudanças e transformações. A “cidade na montanha” é também um conhecido símbolo arquetípico que aparece na história da nossa cultura sob inúmeras variações. A cidade, cuja planta corresponde a uma mandala, representa a “região da alma” em cujo centro o self (centro e totalidade da psique) tem sua morada. A urina (que poderia simbolizar o fluxo da libido) parece inesgotável. Evidencia abundância, força criadora e vital (os primitivos, por exemplo, consideram tudo que vem do corpo — cabelo, excrementos, urina ou saliva — como criativo e dotado de poderes mágicos).

Para chegar mais ao fundo do simbolismo, iremos primeiramente, falar dos besouros que aparecem como pretos, cor da escuridão, da depressão, da morte. Na mitologia, os escaravelhos são muitas vezes dourados; no Egito eram animais sagrados que simbolizavam o sol. Mas se são pretos simbolizam o lado oposto do sol: algo demoníaco. Portanto, o instinto de querer lutar contra os besouros com alguma mágica aparece, e apesar de quatro ou cinco dos besouros terem sobrevivido, a diminuição do seu número é suficiente para libertar o indivíduo do medo e do nojo. Procura então destruir o foco com fogo. É uma ação positiva, porque o fogo, simbolicamente, pode levar à transformação e ao renascimento (como acontecia, por exemplo, no antigo mito do fênix).

Toda transformação pede como condição primeira “o fim de um mundo” — o colapso de uma arraigada filosofia de vida. Como o Dr. Henderson acentuou anteriormente neste livro, nas cerimônias de iniciação o jovem deve sofrer uma morte simbólica antes de renascer como homem e ingressar na tribo como seu membro efetivo. Assim, a atitude científica e racional do individuo precisa desaparecer para dar lugar a uma nova atitude. O nove foi por muitos séculos um “número mágico”. De acordo com o simbolismo tradicional dos números, ele representa a forma perfeita de uma trindade aperfeiçoada por sua tripla elevação. E há significados sem conta associados ao número nove, em várias épocas e em diferentes culturas. A cor do nove de espadas (carta do baralho) é a cor da morte, da ausência de vida. E a figura de “espadas” evoca a forma de uma folha, enquanto sua cor negra acentua que em lugar de ser verde, vital e natural, ela está morta. Além disso, a palavra “espada” é derivada do italiano spada, que significa lança ou espada, armas que simbolizam a função “cortante” e penetrante do intelecto.  O negro é, para algumas pessoas, a imagem arquetípica da “criatura primitiva e sombria”, portanto uma personificação de certos conteúdos do inconsciente através do sonho. Talvez seja esta uma das razões por que o negro é, tantas vezes, rejeitado e temido pela gente branca. Nele o homem branco vê, diante de si, a sua contrapartida viva, o seu lado secreto e tenebroso (exatamente o que as pessoas tentam sempre evitar, o que elas ignoram e reprimem). Os brancos projetam no homem negro os impulsos primitivos, as forças arcaicas, os instintos incontrolados que se recusam a admitir em si próprios, de que estão inconscientes e que imputam, consequentemente, a outros. Para um jovem na faixa dos 20-30 anos, o negro pode representar, por um lado, a soma de todos os aspectos tenebrosos reprimidos na sua inconsciência; e por outro, a soma da sua força masculina, primitiva, e das suas potencialidades e faculdades emocionais e físicas

vaso

símbolo no sonho: de uma esfera transparente contendo outras esferas menores, nasce uma planta. A esfera simboliza unidade; a planta simboliza vida e crescimento.

tribo

símbolo no sonho: tropas que não estão em preparativos bélicos formam uma estrela com oito braços que gira para a esquerda. Esta imagem talvez queira significar que algum conflito interior deu lugar à harmonia.

Até os mesmos símbolos requerem uma interpretação diversa para cada caso. Escolhi particularmente este porque é um exemplo impressionante da autonomia dos processos do inconsciente e também porque mostra, na sua abundância de imagens, a incansável faculdade de criar símbolos que tem o nosso segundo plano psíquico. Prova que a ação auto-reguladora da psique (quando não está perturbada por explicações ou dissecações demasiado racionais) pode sustentar e fortalecer o processo de desenvolvimento da alma. Ainda estamos longe de compreender o inconsciente ou os arquétipos — estes núcleos dinâmicos da psique — em todas as suas implicações. Tudo que podemos constatar agora é o enorme impacto que os arquétipos produzem no indivíduo, determinando suas emoções e perspectivas éticas e mentais, influenciando o seu relacionamento com as outras pessoas e afetando, assim, todo o seu destino. Podemos verificar ainda que os arquétipos são capazes de agir em nossa mente como forças cria doras ou destruidoras; criadoras quando inspiram idéias novas, destruidoras quando estas mesmas idéias se consolidam em preconceitos conscientes que impossibilitarão futuras descobertas.

~~***~~

Essa bela análise foi retirada do livro “O Homem e os seus símbolos” escrito por Carl Gustav Jung, Jolande Jacobi, e Marie-Louise von Franz e publicado anos após a morte de Carl Jung, no ano de 1964. Foi sua última obra e a primeira em que buscava uma linguagem de fácil compreensão para quem quisesse lê-lo. Esse livro é incrível, vale muito a pena obtê-lo para a biblioteca pessoal.

No blog já trouxemos outros dois capítulos muito interessantes deste meio livro: Símbolos: O Círculo e Simbologia: Os atributos animais dos Deuses. Eles podem te auxiliar nos seus estudos! 😉

Obrigado!

Por favor, lembre-se de compartilhar trechos ou textos completos do blog sempre com os devidos créditos!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s