Uma Civilização do Ar e do Fogo – Os Presságios (1983)

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Há pouco mais de dois séculos os homens entraram numa era de mutações incomparável a qualquer outra da história conhecida. Em virtude da expansão científica e técnica, da industrialização, e atualmente da informática, um viajante do tempo do século XVIII se sentira menos deslocado se fosse projetado para trinta séculos antes de sua época, para os tempos de Moisés, do que se desembarcasse entre nós, apenas duzentos anos adiante.  Os aspectos políticos, econômicos, sociológicos, psicológicos ou culturais dessa reviravolta foram amplamente analisados por diversas doutrinas. Há, entretanto, um aspecto dessa gigantesca crise a que se deu pouca atenção e que salta aos olhos: é brutal a passagem de uma civilização da Terra e Água para uma civilização do Ar e do Fogo.

Inicialmente, ao nível material e prático, aconteceu a transformação de uma sociedade agrícola e rural numa sociedade urbano-industrial, o que evidencia um abandono da Terra. Ao mesmo tempo, modificaram-se completamente os meios de transporte e comunicação. As estradas de andarilhos e cavaleiros (Terra), as vias fluviais e marítimas (Água) foram quase abolidas por circuitos destinados às máquinas a motor, automóveis, trens, aviões, isto é, o Fogo e ao Ar. O rádio, a televisão, o cinema, o telefone, a internet e todas as formas de energia, nucleares ou não, tornaram-se os suportes onipresentes de nossa civilização. Todas essas técnicas são rebentos do Ar e do Fogo. Para o cidadão do século XX, a noite não é mais totalmente noite. Sua experiência e seu conhecimento da escuridão e das trevas são, certamente, menos intensos e agudos do que os de um contemporâneo de Luís XVI que, para iluminá-lo, não dispunha dessas guirlandas elétricas penduradas em nossas ruas e fachadas. O problema do frio também é muito menos dramático pois até o mendigo tem a possibilidade de enfrentar o inverno, usando a entrada do metrô como abrigo. Luz, calor = Fogo.

Ao nível da habitação, recorre-se cada vez mais à altura, com os arranha-céus, os grandes conjuntos residenciais, renunciando-se cada vez mais aos dados especificamente terrenos do ambiente familiar: celeiro, jardim ou porão. Os únicos subterrâneos que temos são os dos estacionamentos ou do metrô. Paralelamente, o uso cada vez mais generalizado dos materiais sintéticos produz uma uniformização, um nivelamento das sensações sólidas. Aos poucos perdemos a diversidade sensorial que implicava o intercâmbio cotidiano, a constante intimidade com as formas e substâncias da Terra. Uma familiaridade autêntica com um Elemento supõe uma dupla relação de devaneio amoroso e de luta pela vida. Assim, nossas relações com a Água são cada vez mais insípidas, esvaziadas de seus influxos vivos; esta situação pode parecer paradoxal, uma vez que temos acesso à Água muito mais facilmente do que nossos ancestrais – água corrente, piscina, férias na praia, etc. Mas temos um tipo de relação exclusivamente funcional, higiênica e programado com a Água – sem temor, sem surpresas, sem exaltação, sem abandono nem combate, com exceção ainda dos marinheiros e pescadores. Para um cidadão, “ver o mar” tornou-se coisa banal; mas vemos realmente o mar numa praia lotada e fervilhante? Penetramos na intimidade carnal de uma paisagem marítima, ou na projeção em relevo de um prospecto publicitário?

A ausência do risco e de insegurança acabou por abolir toda relação de jogo e por alterar o sabor essencial do Elemento: o adulto não brinca com a água do seu banho porque tem infinitamente poucas chances de se afogar na sua banheira – ou então é um jogo superficial sem um real engajamento orgânico. Ao contrário, no volante de seu automóvel, ele brinca com a velocidade porque pode se matar a qualquer momento – velocidade = triunfo do Ar sobre o peso e a massa. No século XVIII morria-se muito mais de afogamento do que de excesso de velocidade!

Indicaremos aqui algumas das grandes linhas de pesquisa, que marcam alguns pontos-chave de referência.

Com relação às civilizações tradicionais, sedentárias, de evolução lenta, arraigadas num lugar, nossa civilização exalta sobretudo a circulação, a comunicação, a velocidade (Ar), a transformação e o domínio da matéria pela energia. (Fogo). Aos valores do arraigamento territorial, tribal (Terra), e da comunhão – ritual, devoção religiosa, efusão mistica – (Água), substituímos os ideais de mudança, invocação, de voluntarismo apaixonado (Fogo) e de emancipação e evolução (Ar).  As duas grandes correntes ideológicas da sociedade industrial – que culminaram a revolução liberal francesa e na revolução socialista russa – construíram, respectivamente, projetos de liberdade (Ar) e de transformação do homem por uma subversão das estruturas econômicas (Fogo). Libertar o indivíduo, mudar-lhe a vida, modificar os equilíbrios ancestrais, subverter a ordem estabelecida, violentar a natureza das coisas, o fim sempre justificando os meios frequentemente explosivos e devastadores, incluindo-se os extermínios em massa  a deflagração nuclear, eis os temas prometéicos e luciferinos que inspiram as políticas do século XX. Certos regimes agarram-se à Terra, num culto exacerbado da prátia – o solo nacional – e dos valores tribais, raciais, nutrindo sonhos de expansão territorial escravagista. Foi o que aconteceu com o nazismo e as diferentes formas de facismo que, entretanto, foram varridos por uma colisão do Ar – sistemas democráticos do Ocidente – e do Fogo – sistema comunista da U.R.S.S.

Os valores tradicionalmente femininos (Água, Terra) que representam a face passiva do ser, são cada vez mais negados em prol de valores masculinos e ativos. E o desiquilíbrio assim criado entre os dois pólos indispensáveis desencadeia a agitação frenética, patológica, culminando flagelos do século chamados neurose, angústia, etc. Essa camuflagem de valores femininos é tão flagrante que acabou por infectar a linguagem: em termos como “passivo”, “imóvel”, “estacionário”, etc. estão impregnados de conotações pejorativas, ao passo que aos termos simétricos – “ativo”, “móvel”, etc – creditamos um a priori lisonjeiro. Precisaríamos, pois, proceder a uma verdadeira descontaminação da semântica, a uma desintoxicação do vocabulário. Igualmente significativo é ver os movimentos feministas revindicar, com virulência, não um reconhecimento e uma reabilitação dos valores especificamente femininos, mas o pleno acesso aos valores masculinos, o que acentuaria ainda mais o desequilíbrio, marcando uma tirania ainda mais exclusiva ao pólo ativo Ar-Fogo sobre o pólo passivo Terra-Água, enquanto um dos problemas mais graves parece ser, no próprio homem, a ocultação desse pólo feminino, ou em termos junguianos, da Anima.  As civilizações da Água são civilizações de comunhão, de convivência, de festa – a Água é o Elemento da mixagem e da unificação – o que, nas sociedades tradicionais, era cotidianamente vivido pela importância dos rituais (o batismo ou a ablução sagrada), da família e da hospitalidade. Os rituais quase desapareceram nas sociedades industriais avançadas; a família implodiu, o anonimato da massificação e o medo da insegurança tornaram a hospitalidade quase inconcebível. Não sabemos mais estar juntos espontaneamente, a ponto de termos de inventar “dinâmicas de grupo” e formar animadores e psicólogos para “dar forma” e estimular as relações humanas cada vez mais difíceis.

A Água está estreitamente vinculada às atitudes de distensão (reminiscências da vida líquida intra-uterina) de entregar-se, de sono profundo. Ora, o repouso tornou-se uma situação estritamente higiênica, despojado de virtudes essenciais: distância em relação ao evento, sentido poético e metafísico, interiorização, adesão ao fluxo do real e a possibilidade de viver a plenitude do eterno instante. O homem moderno, que tragicamente se sente culpado por ‘nada fazer’, vive numa tensão cada vez mais crítica com o culto do fogo da ação, fato que o projeta cada vez mais para fora de si mesmo, numa corrida desenfreada e inepta, onde, transportado pela impulsividade, é obrigado a andar cada vez mais depressa para não cair. Sempre fazer mais para sempre ter mais: essa é a única verdadeira religião das massas de nossa época; os modelos não são mais o Sábio e o Santo, mas o campeão, a vedete, o executivo ou o chefe político, isto é, indivíduos que vivem completamente projetados para fora de si mesmos, obcecados pelo prestígio e vivendo seu tempo numa furiosa agitação. Compreende-se então porque nenhuma época sentiu tanto terror da morte, que significa extinção, colapso de toda atividade, desaparecimento do ídolo velocidade, o que é considerado como um mal supremo e inexplicável. Nas sociedades em que são exaltados os valores Água e Terra, a morte – repouso definitivo, submersão, ocultamento – não suscita essa repulsão patológica. Cada vez mais cortadas de suas raízes (Terra), cada vez menos em comunhão com o meio (Água), as gerações atuais estão mutiladas, envolvidas pela vertigem e por um mal-estar, uma instabilidade, uma ansiedade e um sentimento de absurdo incoercível. Nunca se falou tanto em emancipação, libertação, e nunca se foi tão dependente das necessidades com frequência artificialmente fabricadas e enfatizadas. Nunca se falou tanto em trocas, em comunicação, nunca houve tantos grupos, associações, sindicatos e comunidades. E nunca os indivíduos sentiram tanto o mal-estar na pele, nunca experimentaram tanta angústia da solidão, tanta falta da comunhão real, inclusive nas relações sexuais, que se pretendem “liberadas”.

A crise da Terra como Elemento de civilização provoca uma carência ao nível do sentido territorial, do espaço vital e do centro de gravidade. Trata-se de uma doença insidiosa e desastrosa, que afeta uma realidade primordial: nossas bases no mundo, como se de repente não soubéssemos mais nos plantar. É provavelmente uma das motivações secretas de nossa bulimia de consumo: tendo perdido nosso território e nosso eixo de solidez, sentimos um vazio terrível que, desesperada e ineficazmente, procuramos preencher acumulando bens de consumo, numa exasperação do ter e do ego. A Água clorada da torneira, prisioneira dos encanamentos, substituiu a água viva e livre das nascentes, fontes e rios sagrados. Construi-mo-nos um universo cotidiano sólido e uniforme, opaco, opressivo (as mesmas estruturas de cimento, aço, plástico,, em todas as aglomerações do mundo), onde nosso corpo se sente mais aprisionado do que arraigado, onde o olhar vislumbra mais uma massa de obstáculos e armadilhas do que um espaço de expressão e desenvolvimento, uma extensão amistosa do nosso ser sensível.

Talvez todos esses sintomas indiquem apenas a crise de crescimento que marca a passagem por demais súbita de uma civilização Terra-Água para uma civilização Ar-Fogo. Esperemos, pois, que um reequilíbrio efetue-se de qualquer modo no decurso dos próximos decênios, o que, aliás, parece esboçado pelos movimentos de inspiração ecológica.

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Este texto foi retirado do livro Os Presságios de 1983 que faz parte da coleção Artes Divinatórias. Abrange diversos assuntos como os Oráculos Naturais, A Vida dos Quatro Elementos, Símbolos e Presságios dos Quatro Elementos; que em breve estarei postando aqui no blog. O legal desse livro é que ele faz diversas associações e usa a simbologia de contos e mitos antigos para se fazer entender, já que tudo é signo, tudo é presságio.

As substâncias e as formas que nos cercam correspondem simbolicamente a tendências psicológicas e a comportamentos cotidianos, bem como valores morais e ideológicos. Recomendo a quem queira comprar, é uma boa escolha, vale a pena devorar esta bela coleção que nos remete a profundas reflexões.

Grata mais uma vez! Até a próxima 😉

NM

Por favor, lembre-se de compartilhar trechos ou textos completos do blog sempre com os devidos créditos!

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