Símbolos: O Círculo – “O Homem e Seus Símbolos” (1964)

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Vamos falar sobre um dos símbolos mais antigos e sempre presentes, o círculo.

A Dra. Marie Louise Von Fraz explicou o círculo (ou esfera) como um símbolo do self: ele expressa a totalidade da psique em todos os seus aspectos, incluindo o relacionamento entre os homens e a natureza. Não importa se o símbolo do círculo está presente na adoração primitiva do sol ou na religião moderna, em mitos ou em sonhos, nas mandalas desenhadas pelos monges do Tibete, nos planejamentos das cidades ou nos conceitos de esfera dos primeiros astrônomos, ele indica sempre o mais importante aspecto da vida – sua extrema e integral totalização. 

Um mito indiano da criação conta que o deus Brama, erguido sobre um imenso lótus de milhares de pétalas, voltou seus olhos para os quatro pontos cardeais. Esta inspeção quádrupla, feita do círculo de lótus era uma espécie de orientação preliminar, uma tomada de contas indispensável antes de ele começar o seu trabalho da criação. Conta-se história semelhante a respeito de Buda. No momento de seu nascimento, uma flor de lótus nasceu da terra e ele subiu em cima dela para contemplar as 10 direções do espaço. O lótus nesse caso tinha 8 pétalas, e Buda olhou também para o alto e para baixo, fazendo as 10 direções. Esse gesto simbólico de inspeção foi a maneira mais concisa de mostrar que, desde o instante de seu nascimento, Buda foi uma personalidade única, destinada a receber luz. Sua personificação e existência ulterior receberam o cunho da unidade. Esta orientação espacial realizada por Brama e por Buda pode ser considerada um símbolo da necessidade de orientação psíquica do homem. As quatro funções da consciência descritas pelo Dr. Jung – o pensamento, o sentimento, a intuição e a sensação – preparam o homem para lidar com as impressões que recebe do exterior e do interior. É através dessas funções que ele compreende e assimila sua experiência, e é ainda através delas que pode reagir. A inspeção quádrupla do universo feito por Brama simboliza a integração dessas quatro funções que o homem deve alcançar.

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Na arte, o círculo tem muitas vezes oito raios, exprimindo a superposição recíproca das quatro funções da consciência que dão lugar a quatro outras funções intermediárias – por exemplo, o pensamento realçado pelo sentimento ou pela intuição, ou o sentimento inclinando-se para a sensação. Nas artes plásticas da Índia e do Extremo Oriente o círculo de quatro ou oito raios é o padrão habitual das imagens religiosas que servem de instrumento à meditação. No lamaísmo, particularmente dos tibetanos, mandalas ricamente ornamentadas representam um importante papel. Em geral elas significam o cosmos e sua relação com os poderes divinos. Entretanto, muitas destas imagens de meditação oriental são desenhos geométricos chamados iantras, que também são formados por dois triângulos que se interpretam, um apontando pra cima e outro para baixo. Tradicionalmente, esta forma simboliza a união de Shiva e Shakti, as divindades masculina e feminina. Com relação ao simbolismo psicológico, expressa a união do mundo pessoal e temporal do ego com o mundo impessoal e intemporal do não-ego. Esta união é a consumação e o alvo de todas as religiões: é a união da alma com Deus. Em ambos, tanto nos triângulos iantras quanto nas esculturas representando a união de Shiva e Shakti, é acentuada a tensão entre os contrários. Daí o caráter marcadamente erótico e emocional de muitos desses símbolos. Esta qualidade dinâmica implica um processo – a criação ou o nascimento da unidade, – enquanto o círculo de quatro ou oito raios representa a própria unidade, isto é, uma entidade existente.

O círculo abstrato também aparece na pintura zen. Referindo-se a um quadro intitulado O Círculo, do famoso zen Sangai, outro mestre zen escreve: “Na seita zen, o círculo representa o esclarecimento, a iluminação. Simboliza a perfeição humana”. Mandalas abstratas também aparecem na arte cristão européia. Alguns dos mais admiráveis exemplos são as rosáceas das catedrais: representam o self do homem transposto Cristopara um plano cósmico (Dante teve uma visão de mandala cósmica sob forma de uma resplandecente rosa branca). Podemos considerar mandalas as auréolas de Cristo e dos santos cristãos das pinturas religiosas. Em muitos casos, apenas a auréola de Cristo é divida em quatro, uma alusão significativa ao seu sofrimento como Filho do Homem e a sua morte na cruz e, ao mesmo tempo, um símbolo da sua unidade diversificada. Nas paredes das primeiras igrejas romanas encontram-se, algumas vezes, figuras circulares abstratas que remontam as origens pagãs.

Na arte não-cristã estes círculos são chamados de “rodas solares” e aparecem gravadas em rochedos que datam da época neolítica, quando a roda ainda não fora inventada. Como Jung assinalou, a expressão “roda solar” demonstra apenas o aspecto exterior da figura. O que realmente importa em todas as épocas é a experiência de uma imagem arquetípica interior, que o homem da pedra exprimiu de maneira tão fiel quanto na sua pintura de touros, gazelas e cavalos selvagens. iconEncontramos muitas mandalas na arte pictórica cristã, como raríssima imagem da Virgem no centro de uma árvore circular, que é o símbolo divino. As mais comuns são as que representa Cristo cercado pelos quatros evangelistas. Tem sua origem nas antigas representações do deus Horus com seus quatro filhos. Na arquitetura a mandala também ocupa lugar relevante – embora às vezes passe despercebida. Constitui o plano básico das construções seculares sagradas de quase todas as civilizações; a figura no traçado das cidades antigas, medievais e mesmo modernas. Um exemplo clássico aparece no relato de Plutarco sobre a fundação de Roma. De acordo com ele, Rômulo mandou buscar arquitetos na Etrúria que lhe ensinaram costumes sacros e leis a respeito das cerimônias a serem observadas – do mesmo modo que nos “mistérios”. Primeiro cavaram um buraco redondo – onde se ergue agora o Comitium ou o Congresso – e dentro dele jogaram oferendas simbólicas de frutos da terra. Depois cada homem tomou um pouco de terra do lugar onde nascera e jogou dentro da cova feita. A esta cova deu-se o nome de mundus (que significa cosmos). Ao seu redor Rômulo com uma charrua puxada por um touro e uma vaca, traçou os limites da cidade em um círculo. A cidade fundada sob esta cerimônia solene tinha forma circular. No entanto, a velha e famosa descrição de Roma refere-se a urbs quadrata, a cidade quadrada. De acordo com uma teoria que tenta explicar essa contradição a palavra quadrata deve ser entendida como quadrapartita, isto é, a cidade circular dividida em quatro partes por duas artérias principais que corriam de norte a sul e de leste a oeste, sendo o mundus o ponto de interseção. Inúmeras cidades medievais form edificadas sobre a planta-baixa de uma mandala e rodeadas por muralhas. Nestas cidades como em Roma, as artérias principais dividiam-nas em “quartos” e levavam a quatro portões. A igreja ou a catedral erguia-se no ponto de interseção destas artérias. O modelo de inspiração destas cidades fora Jerusalém Celeste (do Livro do Apocalipse).

Toda construção religiosa ou secular, baseada no plano de uma mandala é uma projeção da imagem arquetípica do interior do inconsciente humano sobre o mundo exterior. A cidade, a fortaleza e o templo tornaram-se símbolos da unidade psíquica e, assim, exercem influência específica sobre o ser humano que entra ou que vive naquele lugar. “Estas coisas não podem ser inventadas”, escreveu Dr. Jung, “devendo ressurgir de profundezas esquecidas para expressas as mais elevadas percepções da consciência e as mais sublimes intuições do espírito, unindo assim o caráter singular da consciência moderna com o passado milenar da humanindade”.

O símbolo do círculo tem representado e ainda representa, uma parte curiosa de um fenômeno invulgar da nossa vida de hoje. Nos últimos anos da Segunda Grande Guerra houve “rumores” a respeito de corpos voadores redondos, que se tornaram conhecidos como “disco voadores” (ou “objetos voadores não identificados”). Jung explicou esses objetos como a projeção de um conteúdo psíquico (de totalidade) que, em todas as épocas, sempre foi simbolizado pelo círculo. Em outras palavras, estas “visões”, como também se verifica em muitos sonhos, são uma tentativa da psique inconsciente coletiva para curar a dissociação de nossa época apocalíptica através do símbolo do círculo. 

Essa bela análise foi retirada do livro “O Homem e os seus símbolos” escrito por Carl Gustav Jung, Jolande Jacobi, e Marie-Louise von Franz e publicado anos após a morte de Carl Jung, no ano de 1964. Foi sua última obra e a primeira em que buscava uma linguagem de fácil compreensão para quem quisesse lê-lo. Esse livro é incrível, vale muito a pena obtê-lo para a biblioteca pessoal.

Obrigado!

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6 comentários sobre “Símbolos: O Círculo – “O Homem e Seus Símbolos” (1964)

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